sábado, outubro 14, 2006

TRÍADE

I
Costas lisas

Novamente pôr os pés no chão
e limpar os joelhos
sujos de lodo vesgo pedras aleijadas
cinzas mudas.

De novo reacender
o carvão
úmido, esquálido e morto.

Tirar dos vãos dos dedos
o pó de espelhos domesticados.

Começar outra vez
com o álibi
de costas lisas.


II
Poros crus

Tombar para trás.
Banquete.
Sentir a carne do asfalto
gritar seu ódio
seu peso
seu grito mais mudo explodindo e cravando unhas e dentes e urro
em cada poro
das costas sem cais.
Ser arrastado
até à anestesia do que já não é mais asfalto.
Não sentir.
Pela retrocedência desgraçada de tudo.


III
Véus

Não ter mais vão nem fresta.
Carnes roídas.
Células: epitáfios.
Uma retina que espera o último fim
E a outra que sente as covas vagas.
E mais
Nada que se possa preenchê-lo.


Dheyne de Souza

1 Comentários:

Às 21/11/06 21:48 , Anonymous Mayara Santos disse...

"Novamente pôr os pés no chão" e "tombar para trás"...

eu, enlouquecendo...(mania de flog)


belo poema!!

 

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